25 abril, 2008

Joaquim Pessoa (vou-me embora de mim)

Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.

A natureza das coisas é a tua natureza.

Respira-te, despe-te, faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir

quando não sabes mais o que dizer.

Os teus dentes estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te

decisão nos passos e firmeza nos gestos.

Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a

voracidade do tempo.

Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,

que não te dê descanso

e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é

teu, nem um centavo pagarás por ele.

Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.

Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,

e o beijo que deste e o beijo que darás, canta

o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem

as árvores,

canta cada momento que partilhas com amigos, e cada

amigo

como um astro que desponta no firmamento breve do teu

corpo.

E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para

cantar.

E o que não souberes e o que não entenderes, canta.

Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir

a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e

os séculos vindouros,

muito do pó que sacodes já foi vida, talvez beleza, orgulho,

pedaços de prazer.

A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,

o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!

Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,

não pares de cantar.

Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. constrói o teu amor,

vive o teu amor,

ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que mais querem é o amor.

Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual

alguma vez.

Canta. Enquanto esperas, canta.

Canta quando não quiseres esperar.

Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a

esperança te encontrar.

Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e

porque sentes que é preciso cantar.

E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.

E canta se te falta a liberdade.

(...)



in Vou-me embora de mim, Ed. Hugin, 2000, págs. 21-23

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Adorei tudo, a escolha dos poemas, as fotos... muita sensibilidade. Excelente!
Alda

domingo, maio 11, 2008  

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